Carlos Marcelo (Correio Braziliense)
Alta noite. Ao esperar o elevador, olho para cima e tomo um susto. Deparo-me com um cordão cintilante e, no centro, uma gigantesca esfera prateada, que reflete o rosto de quem a observa. Desconfio que o condomínio instalou uma câmera de vigilância. Não, trata-se de uma singela bola de árvore natalina, solitária em sua missão de lembrar a data vindoura. No caminho do trabalho para casa, de madrugada, tinha observado a tradicional cascata de luzes na região central da cidade. Outros shoppings também já inauguraram suas decorações de fim de ano: papai-noel de plantão, criancinhas no colo, olhares de cobiça para as vitrines, passos apressados, sacolas cheias. Vem à cabeça a manchete que entrou para a história do jornalismo brasileiro: "De repente, chegou o Natal". Mas será que esse será igual aos outros?
No que depender do governo federal, o clima vai ser bem diferente da retração observada em 2008 por conta da crise financeira mundial. "O Brasil terá um excelente Natal e tem perspectiva muito boa para o ano que vem", garantiu nessa quarta-feira o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. As medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, integram o pacote de bondades de um velhinho barbudo que não mora na Lapônia: depois de fabricantes de máquinas de lavar, geladeiras, caminhões e automóveis serem beneficiados com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), chegou a vez da indústria moveleira. Móveis e painéis de madeira terão alíquotas zeradas até 31 de março de 2010. Vem aí uma avalanche de fregueses dispostos a parcelar tudo em 10, 12, 20, 36 vezes. Não faltarão carnês embaixo da árvore natalina.
Os analistas receberam o anúncio das benesses com ceticismo. "Prorrogação de IPI menor não é política industrial. É política eleitoral, e com data de validade", definiu o colunista do Correio Antonio Machado. E ele tem razão para externar sua desconfiança. Tantas medidas de uma só vez podem trazer o reaquecimento precipitado da atividade econômica. O risco de desabastecimento torna-se concreto; começam a pipocar notícias de falta de mercadorias nas lojas. Incentivada pelo governo, a sanha de comprar dá as caras e promete encher o cofre dos comerciantes até o fim do ano. Mas será que o estímulo ao consumo se traduzirá necessariamente em votos? Em longo prazo, como as decisões das últimas semanas afetarão a necessidade de controle da inflação? E qual será a dimensão da ressaca pós-euforia consumista? Respostas para essas e outras perguntas, só no Natal de 2010. Bem depois das eleições

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