Golpistas enviam e-mails e pedem dados pessoais de vítimas com oferta de dinheiro fácil. Negócios ilegais movimentam US$ 2 bilhões por ano. Enredos envolvem países africanos
Humberto Siqueira (Correio Braziliense)
Cada vez mais, a internet vem sendo usada como um canal para a aplicação dos mais variados roubos. Animado com a possibilidade de melhorar a situação financeira, o internauta não pensa duas vezes, caindo numa armadilha muito bem engendrada pela mente sempre criativa do estelionatário. Basta deixar um e-mail ou telefone de contato para se transformar em alvo potencial de pessoas mal intencionadas. Negócios ilegais, que, segundo estimativas de sites norte-americanos que alertam para o problema, movimentam cerca de US$ 2 bilhões por ano.
Os que mais lesam vítimas em termos de volume de dinheiro são aqueles em que há promessas de participação em grandes fortunas. As histórias inventadas pelos estelionatários invariavelmente apelam para o lado emocional e o religioso. Todos garantem ter contas polpudas, que, por motivos nem sempre explicados, estão sempre bloqueadas. É nessa hora que costumam fazer à vítima um pedido de adiantamento, com a justificativa de usar o dinheiro cedido para pagar despesas com advogado, incentivos e taxas ou, até mesmo, a viagem para resgatar os milhões.
A reportagem manteve contato com um dos golpistas e investigou o negócio ilegal que preocupa autoridades, principalmente de Gana, Nigéria e Serra Leoa, países africanos de onde vem a maioria dos golpes. O golpista, que se apresentou com o nome de Joe Aku, apresenta proposta que envolvia aplicar US$ 2 milhões no Brasil, fruto de comércio legal de outro em Dafur, no Sudão. Ele diz não ter informações sobre as melhores opções de investimentos e, em troca, oferece 20% de comissão, não só do lucro, mas de todo o valor investido.
O enredo continua com Joe alegando ter depositado US$ 2 milhões em uma caixa metálica enviada à Sky Security, uma empresa de segurança na Inglaterra, que realmente existe. Ele promete então enviar a caixa e a senha para abertura dela, e pede dados pessoais do interlocutor, mas diz que precisa pagar US$ 5 mil ao advogado que providenciará a liberação do cofre. Informa ter apenas US$ 1,5 mil e pede o restante como ‘empréstimo’, que deverá ser depositado em uma conta no Banco do Brasil.
E-MAIL GRATUITO
O modelo da abordagem é apenas um entre vários, assim como o nome do impostor. Ao todo, já foram reconhecidos mais de 100 cartas e 200 nomes usados pelos contraventores. A mensagem com a proposta é, com poucas exceções, de um serviço gratuito, como Hotmail ou Yahoo. Isso dificulta o rastreamento da origem do e-mail.
Segundo a embaixada de Gana no Brasil, o golpe é aplicado em larga escala. Inclusive, com alguns casos de homicídio. Calcula-se que US$ 2 bilhões são roubados anualmente pelos bandidos. É difícil apontar com precisão, pois uma parte significativa das vítimas não registra queixas nem comunica a fraude. O silêncio se deve ao receio de se expor ao ridículo por ter caído num conto de fadas. Segundo a Polícia Federal, por se tratar de estelionato, a investigação é de competência da Polícia Civil, a não ser que envolva golpistas de outros países.

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